segunda-feira, 17 de setembro de 2012

A Verdade


À noite despertei de súbito. Meu peito subia e descia rapidamente ao descompasso de uma taquicardia que me pôs sentado na cama. Olhei para o relógio: Quatro da manhã. Seria mesmo possível? Não...eu não podia acreditar. Era muito cedo para levantar e o negrume da noite ainda pairava sobre a avenida vazia. 


Fiquei de pé, recostei-me na janela e suspirei, balançando o corpo vagarosamente para frente e para trás, como se ninasse a mim mesmo. Lá fora não havia nada, exceto o silêncio. Tudo parecia recomeçar. Por mais que tentasse entender, não conseguia. Por quê? 

Estava sonhando. O mesmo sonho que me atormentava todas as noites, me fazendo estremecer e acordar desnorteado. Às vezes, aos prantos.

Foi quando alguma coisa se mexeu lá fora. Eu teria enxergado bem? Não...foi impressão. Mas eu podia jurar ter visto...Senti uma angústia no peito. Tateei a cômoda em busca dos meus óculos, mas não achei. Não me preocupei, pois naquela época do ano o sol não tardava a aparecer, lá por volta das quatro e meia. 

Enquanto o vento acariciava as copas das árvores que enfeitavam a avenida escura, parecia cantar uma melodia solitária.

-...eu..estou...aqui...

Não...o sol estava demorando demais para nascer. Os segundos se arrastavam em intervalos de eternidade. Mas e se ele não aparecesse? E se o sol nunca mais viesse? Sim...eu desconfiava que ele não viria...

Foi quando começou.


Barulho lá fora. O som emanava de forma disforme e entorpecente. Era difícil dizer de onde tal vibração vinha. Era como se algo se arrastasse pelo chão, rápida, esguia e implacável. O que fosse, nada poderia deter. Fez-se silêncio e só restou a minha expectativa em meio ao escuro.

Repentinamente, o barulho tornou-se ensurdecedor. 

Cada parede ressonava com o tremor que crescia a cada segundo. O que se aproximava estava cada vez mais perto e eu podia sentir a presença daquilo.

A porta abriu.

Eu não tive nem chance de ver o que era, ou se era. Corri desesperadamente em direção à rua, ainda cego pela escuridão. Corri tanto que nem sabia mais para onde e nem de onde eu vim. Corri até esquecer quem eu era. Corri até tropeçar na Verdade e cair pelo chão.
A Verdade... Me disseram que a verdade é para poucos. Senti repulsa por aquilo que eu tinha medo de descobrir. Mas eu não conseguia olhar para trás. 

E lá estava eu, de bruços e imóvel, estatelado no chão. Não conseguia mexer um milímetro do meu corpo. E eu senti que algo se aproximava....mas Deus, eu tinha corrido tanto....eu tinha corrido TANTO! Como ele foi me alcançar?

Senti alguém me erguendo do chão lentamente...

- E se você tivesse outra chance, você faria tudo igual? Você fugiria de novo? Você olharia para trás?

             Eu não podia falar. Não pude responder. Estava completamente paralisado pelo medo. Senti meu corpo ser atirado para cima com muita força. E então e comecei a cair, cair e cair...uma queda livre sem fim. Até que atingi o solo.

            -...eu...estou...aqui...liberte-me...liberte-me....

Despertei de súbito. Meu peito subia e descia rapidamente ao descompasso de uma taquicardia que me pôs sentado na cama. Olhei para o relógio: Quatro da manhã. Seria mesmo possível? Não...eu não podia acreditar.

- Mais uma vez aquele sonho idiota...

Por Mzar

4 comentários:

  1. ...(suspiro)...texto tenso...

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  2. Gostei da Estréia Mzar!

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  3. é isso mesmo, a verdade sempre nos perseguindo e por mais que tentemos nos esquivar, ela é implacável! belo texto mzar!

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